O Festival que se Reinventa sem Perder a Essência (*)
A cada
noite de apresentação, o 68º Festival Folclórico do Amazonas reafirma uma
certeza que só quem acompanha de perto consegue perceber. O nosso festival
continua vivo porque nunca deixou de se renovar. A arena do Centro Cultural dos
Povos da Amazônia se transforma em um grande palco onde tradição, criatividade
e identidade caminham lado a lado, surpreendendo o público a cada espetáculo.
Entre tantas apresentações, algumas merecem um olhar mais atento. As Danças Internacionais Caximira, Daraj e Al-Karak mostraram mais uma vez o quanto essa modalidade conquistou espaço dentro do festival pela qualidade artística e pelo cuidado com cada detalhe de suas coreografias. Da mesma forma, as Danças Regionais continuam provando que a riqueza da Amazônia é inesgotável.
Foi
exatamente essa impressão que tive ao assistir à apresentação de Povos e Lendas
da Amazônia. O grupo ocupou toda a arena com segurança, demonstrando um corpo
de dança muito bem ensaiado e consciente do espaço cênico. As narrativas
inspiradas em lendas como Naiá, que deu origem à Vitória-Régia, o Boto, o
Curupira, o Mapinguari e tantas outras encantarias amazônicas conduziram o
público por uma viagem à memória e ao imaginário da nossa floresta.
Outro
aspecto que chamou minha atenção foi a força da trilha sonora. As composições
autorais de Kleber Cruz e Marco Sahdo não serviram apenas como acompanhamento
musical. Elas ajudaram a contar a história, conduziram as emoções e facilitaram
a compreensão das narrativas sobre os rios amazônicos, aproximando ainda mais o
público do espetáculo apresentado.
Pouca gente talvez se dê conta da dimensão que o Festival Folclórico do Amazonas alcançou ao longo de sua história. O evento nasceu em 1957 e, desde então, foi incorporando novas modalidades até chegar às atuais dezoito expressões culturais, entre elas os tradicionais Bumbás de Manaus. Essa evolução demonstra que o festival soube crescer sem abandonar suas raízes, preservando sua identidade enquanto acolhia novas manifestações da cultura popular.
Também
vale destacar quem ajuda a contar essa história diante do público. Atualmente,
a apresentação do festival está nas competentes mãos de Kirk Sahdo e Suelen
Gonzaga, que conduzem cada noite com profissionalismo e sensibilidade. Antes
deles, nomes que se tornaram referência deixaram suas marcas, como o
inesquecível Paulo Gilberto, Rubens Galvão, Isaac Freitas, Alex Oliveira e
tantos outros que contribuíram para construir a memória desse grande espetáculo.
O
festival segue até o dia 5 de agosto levando emoção ao palco do Centro Cultural
dos Povos da Amazônia. Depois, nos dias 7 e 8 de agosto, a grande festa
continua na arena do Sambódromo de Manaus, quando entram em cena os Bois Bumbás
Brilhante, Clamor de um Povo, Corre Campo, Garanhão, Galante de Manaus e Tira
Prosa.
O mais
bonito de tudo isso é perceber que o público continua fazendo sua parte. A cada
apresentação, as arquibancadas respondem com aplausos sinceros, reconhecendo o
esforço de centenas de artistas que dedicam meses de trabalho para levar à
arena espetáculos cada vez mais completos.
É por
isso que sempre digo que o Festival Folclórico do Amazonas vai muito além de
uma competição. Ele é um retrato da nossa história, da nossa diversidade cultural
e da capacidade que o povo amazonense tem de transformar tradição em arte.
Enquanto houver artistas dispostos a preservar essa herança e um público
disposto a valorizá-la, o festival continuará escrevendo novos capítulos de uma
história que pertence a todos nós.
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(*) Nonato Torres é Licenciado em História, por Graduação; Folclorista há 50 anos, por coração. Especialista em Produção Cultural, Arte e Entretenimento, e História e Cultura Afro-Brasileira.

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