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Quando o espetáculo respeita a tradição, o folclore vence! (*)

O 68º Festival Folclórico do Amazonas continua provando que a verdadeira grandeza de um espetáculo não está apenas no impacto visual das apresentações, mas na inteligência de quem consegue emocionar sem abandonar a própria identidade. A cada noite surgem boas surpresas, mas também cresce uma reflexão que considero necessária para quem acompanha o nosso movimento folclórico há tantos anos.

A noite do último dia 30 foi uma demonstração de que criatividade não precisa significar rompimento com as raízes. As Quadrilhas Tradicionais Marupiaras do Amazonas, JAQ na Roça e Junina Cabocla utilizaram toda a arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia com segurança, ritmo e domínio cênico. O universo do circo serviu como fio condutor para apresentações que souberam equilibrar realidade e ficção sem transformar a tradição em um simples espetáculo de efeitos. É exatamente essa diferença que separa uma criação artística de uma descaracterização cultural.


Infelizmente, nem sempre esse limite é respeitado. Há uma tendência crescente de acreditar que o folclore precisa parecer cada vez mais um grande musical para conquistar aplausos. Discordo dessa lógica. O folclore não nasceu para disputar espaço com o entretenimento de consumo rápido. Nasceu para preservar a memória de um povo, contar histórias, transmitir valores e fortalecer identidades. Quando o espetáculo passa a ser maior que a manifestação cultural, corre-se o risco de inverter prioridades e transformar tradição em produto.


Por isso, merece registro o trabalho desenvolvido pelas Danças do Cacetinho. Em vez de recorrer ao exagero, mostraram o esplendor da cultura indígena por meio de narrativas consistentes, figurinos bem concebidos e coreografias que retrataram o cotidiano das aldeias com dignidade. O resultado foi uma apresentação forte exatamente porque respeitou quem inspirou sua construção. A cultura indígena não precisa ser reinventada para impressionar. Ela já carrega, por si só, uma riqueza que atravessa séculos.


O Festival Folclórico do Amazonas sempre foi um espaço de renovação. Renovar, porém, nunca significou apagar a origem das manifestações. O novo deve dialogar com a tradição e não a substituir. Há grupos que compreenderam isso e apresentam espetáculos modernos sem abrir mão da essência. Outros, infelizmente, parecem acreditar que quanto mais distante da origem estiverem, mais inovadores serão. Esse é um caminho perigoso. O aplauso pode durar alguns minutos, mas a descaracterização deixa marcas por muitos anos.


Da mesma forma, não poderia deixar de registrar e considero uma obrigação prestar homenagem a um profissional que há décadas ajuda a escrever a história do nosso folclore. Refiro-me ao jornalista e apresentador Milton Xavier, da Rede Encontro das Águas. Poucos comunicadores compreenderam tão bem a responsabilidade de divulgar as manifestações populares sem reduzi-las ao mero espetáculo. Seu trabalho sempre valorizou os artistas, os mestres da cultura, os grupos e suas histórias. 

Neste momento, manifesto e deixo registrada minha solidariedade a Milton Xavier, aos seus familiares e a todos que convivem com ele, na esperança e na certeza de que receba o mesmo carinho que dedicou ao nosso movimento folclórico durante tantos anos por sua contribuição que já está definitivamente gravada na memória do nosso movimento folclórico.

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(*) – Nonato TorresHistoriador, por graduação; Folclorista há 50 anos, de coração. É Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira; e em Produção Cultural, Arte e Entretenimento.








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