O Brasil entre a esperança e o desencanto.
Nonato Torres
Tenho observado o momento atual da política brasileira com
uma preocupação que acredito ser compartilhada por muitos brasileiros. Vivemos
um tempo em que a política ocupa praticamente todos os espaços, mas, ao mesmo
tempo, parece cada vez mais distante da vida real de quem trabalha, paga
impostos e enfrenta diariamente as dificuldades de um país que ainda convive
com problemas antigos. Todos os dias somos colocados diante de uma nova
disputa, uma nova declaração, uma nova acusação ou uma nova tentativa de convencer
a sociedade de que os problemas do Brasil sempre estão do outro lado. Enquanto
isso, a vida segue seu curso e o cidadão continua enfrentando aquilo que
realmente pesa sobre seus ombros.
O brasileiro está cansado de assistir a uma política que
muitas vezes parece mais preocupada com a disputa pelo poder do que com a
solução dos problemas do país. Cansado de promessas que ganham força durante as
eleições e perdem importância depois que os votos são contabilizados. Cansado
de ver políticos transformarem adversários em inimigos e de perceber que, em
muitos momentos, o interesse partidário parece falar mais alto do que o
interesse público. Não se trata de defender este ou aquele lado. Trata-se de
reconhecer uma realidade que está diante de todos nós e que não pode mais ser
escondida atrás de discursos bem elaborados.
Existe um Brasil que não aparece nas grandes disputas
políticas. É o Brasil de quem acorda cedo, trabalha, enfrenta o transporte, vai
ao supermercado e precisa fazer contas para que o dinheiro seja suficiente até
o final do mês. É o Brasil de quem paga a conta de energia, a água, o aluguel,
os impostos e tantas outras despesas que fazem parte da vida de qualquer
família. É também o Brasil de quem procura uma consulta médica, espera por
atendimento, preocupa-se com a segurança dos filhos e deseja apenas ter uma
oportunidade para viver com um pouco mais de tranquilidade. Esse brasileiro não
está interessado em saber quem venceu a última discussão política. Ele quer
saber quando sua vida vai melhorar.
É justamente nesse ponto que a política precisa ser cobrada.
Não podemos continuar aceitando que toda discussão sobre o futuro do país seja
reduzida à velha disputa entre esquerda e direita, governo e oposição, situação
e oposição. O Brasil é muito maior do que seus partidos e seus grupos
políticos. O brasileiro não pode ser obrigado a escolher permanentemente um
lado como se estivesse diante de uma guerra. Política não deveria ser uma
disputa para saber quem grita mais alto, quem tem mais seguidores ou quem
consegue impor a narrativa mais conveniente. Política deveria ser o espaço onde
se discutem soluções, prioridades e caminhos para melhorar a vida da população.
Também não acredito que nenhum grupo político tenha o
monopólio da verdade. Governos precisam ser cobrados, mas também precisam ser
reconhecidos quando acertam. Oposição tem o dever de fiscalizar, mas não pode
desejar que o país fracasse apenas para obter dividendos políticos. Da mesma
forma, quem está no poder não pode considerar toda crítica uma ameaça ou uma
tentativa de desestabilização. A democracia exige fiscalização, divergência,
responsabilidade e respeito. Exige, principalmente, que o interesse do país
esteja acima da conveniência daqueles que momentaneamente ocupam espaços de
poder.
O que mais preocupa é perceber que a política brasileira, em
determinados momentos, parece ter esquecido que por trás de cada número existem
pessoas. Quando se fala em economia, existe uma família tentando equilibrar
suas despesas. Quando se fala em inflação, existe alguém pagando mais caro pelo
alimento. Quando se fala em emprego, existe uma pessoa procurando uma
oportunidade. Quando se fala em saúde, existe alguém esperando atendimento.
Quando se fala em segurança pública, existe uma família que deseja simplesmente
voltar para casa sem medo. São essas pessoas que deveriam estar no centro de
qualquer decisão política.
Não podemos transformar o brasileiro em instrumento
eleitoral. O cidadão não pode ser lembrado somente quando chega o momento de
pedir seu voto. Depois das eleições, ele continua existindo, continua pagando
impostos, continua trabalhando e continua esperando que aqueles que foram
escolhidos cumpram aquilo que prometeram. Mandatos são temporários, cargos são
passageiros e governos também passam. O que permanece é o povo e são justamente
as pessoas que permanecem que acabam pagando pelas decisões tomadas, sejam elas
boas ou ruins.
Talvez o Brasil esteja precisando de uma mudança que não
depende apenas de uma eleição. Precisamos mudar a maneira como enxergamos a
política. Precisamos deixar de transformar políticos em salvadores e
compreender que ninguém deveria ocupar um cargo público sem estar preparado
para prestar contas de suas decisões. Precisamos abandonar a idolatria política
e recuperar a capacidade de analisar propostas, cobrar resultados e reconhecer
responsabilidades. Não precisamos concordar com tudo, mas precisamos aprender
novamente a discutir sem transformar toda divergência em uma guerra.
O momento atual exige maturidade. Exige menos torcida e mais
consciência. Exige menos personalismo e mais compromisso. Exige menos discurso
e mais resultado. O brasileiro não quer viver permanentemente em meio a uma
batalha política. Ele quer trabalhar, cuidar da família, ter segurança,
encontrar atendimento digno na saúde, oferecer uma boa educação aos filhos e
ter a possibilidade de olhar para o futuro com esperança. Isso não deveria ser
pedir demais em um país que possui tantos recursos, tanta capacidade e uma
população que, apesar de todas as dificuldades, continua acreditando e
trabalhando.
Escrevo isso sem a pretensão de apresentar respostas definitivas, mas com a convicção de que precisamos falar mais sobre o Brasil real. Um Brasil que não cabe nos discursos de palanque, nas redes sociais ou nas disputas entre grupos políticos. Um Brasil que existe todos os dias e que não pode continuar sendo tratado apenas como estatística, eleitorado ou instrumento de campanha. O povo brasileiro merece respeito e esse respeito começa quando a política deixa de olhar apenas para a próxima eleição e passa a olhar para a próxima geração.
No final de todas as disputas, depois que os discursos
terminam, depois que os palanques são desmontados e depois que os políticos
voltam para suas rotinas, a vida do brasileiro continua. A conta chega, o
trabalho espera, o supermercado continua caro, os problemas continuam nas
cidades e as famílias continuam procurando caminhos para seguir em frente. É
por isso que não podemos perder a capacidade de cobrar. O silêncio da população
não pode ser confundido com aprovação e a paciência do brasileiro não deve ser
interpretada como aceitação permanente.
O Brasil precisa de uma política que compreenda a dimensão
de sua responsabilidade. Precisa de homens e mulheres públicos que entendam que
exercer um mandato é representar pessoas e não interesses particulares. Precisa
de governos que tenham coragem para decidir, de oposição que saiba fiscalizar e
de uma sociedade que não abra mão de questionar. Mais do que escolher entre
personagens políticos, precisamos escolher entre projetos de país. Mais do que
defender políticos, precisamos defender princípios.
Acredito que o Brasil ainda pode ser muito melhor do que é
hoje. Mas isso não acontecerá enquanto continuarmos tratando a política como
uma disputa permanente entre brasileiros. O país precisa reencontrar o
equilíbrio, a responsabilidade e, principalmente, o respeito pelo cidadão.
Porque a política passa, os governos passam, os mandatos passam e os discursos
também passam. Quem fica é o brasileiro, aquele que trabalha, paga a conta,
enfrenta as dificuldades e, mesmo diante de tantas decepções, continua acreditando
que o Brasil pode dar certo. Talvez seja justamente essa esperança que ainda
nos permita acreditar que a política pode voltar a ser aquilo que deveria ter
sido desde o início: um instrumento para transformar a vida das pessoas e
construir um país melhor para todos.
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