Quando a tradição se reinventa sem perder a alma.
Nonato Torres (*)
Há quem ainda insista em dizer que as
quadrilhas tradicionais perderam espaço dentro do Festival Folclórico do
Amazonas. Confesso que essa é uma conclusão precipitada de quem talvez enxergue
apenas o tamanho das alegorias e esqueça de olhar para o que realmente faz uma
manifestação popular permanecer viva: a capacidade de emocionar sem renunciar à
própria identidade.
As apresentações das Quadrilhas
Tradicionais nesta edição do 68º Festival Folclórico do Amazonas deixaram uma
mensagem muito clara. O folclore continua vivo porque existem grupos que
entenderam que tradição não é sinônimo de repetição. Ela se fortalece quando
encontra espaço para dialogar com o presente sem romper o elo com o passado.
Foi exatamente isso que vi na arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia. JAQ na Roça, Junina Cabocla, Sete Quedas na Roça, Junina Ardente, Família Gald, as experientes Brotinhos de Petrópolis, Marupiaras do Amazonas, Juventude na Roça da Dona Terezinha, agora impulsionada pela liderança artística de Mimico, Coração de São João, Explosão Junina, Explosão na Folia e, encerrando a noite de maneira memorável, a consagrada Junina Caipira na Roça transformaram o espaço em um verdadeiro palco da cultura popular.
Cada grupo levou para a arena sua
personalidade, sua história e sua maneira de compreender a tradição junina.
Houve espetáculos visualmente impactantes, coreografias cuidadosamente
construídas, figurinos exuberantes, efeitos pirotécnicos utilizados no momento
certo e uma ocupação cênica que mostrou o quanto as quadrilhas evoluíram
artisticamente. O público respondeu como sempre responde quando encontra
verdade no que vê. Aplausos demorados, arquibancadas vibrando e o sentimento de
que ali estava muito mais do que uma simples competição.
As quadrilhas tradicionais nasceram da
simplicidade dos arraiais, do encontro das famílias, das festas dos bairros, da
criatividade de comunidades que construíram cultura muito antes de existir
iluminação computadorizada, fumaça cenográfica ou equipamentos sofisticados. O
que impressionava era o talento das pessoas. Continua sendo.
Felizmente, os grupos desta edição
demonstraram maturidade para compreender esse limite. Utilizaram recursos
tecnológicos como instrumentos de valorização da apresentação e não como
protagonistas do espetáculo. Existe uma diferença enorme entre usar a
tecnologia para fortalecer uma narrativa e depender dela para esconder a
ausência de conteúdo artístico.
Essa talvez seja a principal lição que
o Festival Folclórico do Amazonas deixa nesta reta final. O futuro das nossas
quadrilhas não está em copiar modelos de grandes produções ou disputar quem
apresenta a maior estrutura. O futuro está na capacidade de preservar aquilo
que nenhuma máquina consegue produzir: identidade, emoção e pertencimento.
É impossível assistir às apresentações sem reconhecer o esforço de centenas de brincantes, coreógrafos, costureiras, aderecistas, músicos e dirigentes que trabalham durante meses movidos muito mais pela paixão do que pelos recursos financeiros. São eles que sustentam um patrimônio cultural construído ao longo de décadas e que se recusa a desaparecer, mesmo diante das dificuldades enfrentadas todos os anos.
O Festival Folclórico do Amazonas segue
até o dia 5 de agosto no Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Depois, nos
dias 7 e 8 de agosto, será a vez de o Sambódromo receber a força dos Bois
Bumbás de Manaus na disputa pelo título de 2026. Mudam as modalidades, mudam os
cenários e mudam as emoções. O que não pode mudar é o compromisso de todos nós
com a preservação da autenticidade.
Os
aplausos terminam quando as luzes da arena se apagam. Os troféus, um dia,
encontram lugar nas prateleiras da memória. Mas a cultura permanece. E ela só
permanece porque existem homens e mulheres que compreendem que tradição não é
um peso do passado. É a herança mais valiosa que podemos entregar às próximas
gerações. O dia em que o folclore esquecer essa verdade poderá continuar sendo
um grande espetáculo. Mas deixará de ser a expressão mais genuína da alma do
povo amazonense.
(*) Nonato
Torres: Historiador e Folclorista. Historiador por graduação;
Folclorista há 50 anos, de coração; Especialista em História e Cultura
Afro-Brasileira; Especialista em Produção Cultural, Artes e Entretenimento.
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