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Crise no Festival Folclórico do Amazonas

 Quando a apuração perde a credibilidade, o Festival perde a sua razão de ser


Há momentos em que é preciso deixar de lado a diplomacia e falar com a franqueza que a cultura popular merece. O que aconteceu no 68º Festival Folclórico do Amazonas, especialmente no processo de julgamento e apuração das danças da categoria Ouro, não pode ser tratado como um simples conjunto de equívocos administrativos. O que se viu foi muito mais grave, uma sucessão de falhas, decisões controversas, interpretações questionáveis do regulamento e situações que colocaram em xeque a credibilidade de um dos mais importantes acontecimentos da cultura popular de Manaus.


Escrevo isso com tristeza, mas também com profunda indignação. Durante meses, dirigentes, artistas, coreógrafos, músicos, brincantes, costureiras, cenógrafos, familiares e comunidades inteiras trabalharam para colocar suas danças na arena. Foram noites de ensaio, sacrifícios pessoais, despesas que muitas vezes saíram do próprio bolso e uma dedicação que não cabe em uma planilha de pontuação. Cada grupo chegou ao Festival carregando não apenas uma apresentação, mas a expectativa de uma comunidade. Por isso mesmo, não se pode admitir que todo esse esforço seja colocado em segundo plano por um processo de julgamento marcado por dúvidas e controvérsias.

 


Durante as apresentações, segundo os problemas apontados ao longo do Festival, houve situações envolvendo critérios diferentes daqueles previstos no regulamento atualmente utilizado, itens que não teriam sido avaliados e outros que teriam recebido avaliação de maneira equivocada. Se o regulamento é a lei do Festival, ele precisa ser conhecido, respeitado e aplicado de maneira absolutamente igual para todos. Não pode existir um regulamento para uma dança e outro para sua concorrente. É justamente aí que entra uma palavra que parece simples, mas que é fundamental: isonomia. Todos precisam competir sob as mesmas regras, com os mesmos critérios, diante dos mesmos julgadores e dentro de uma mesma compreensão do que está sendo avaliado. Quando isso não acontece, nasce a dúvida. E quando a dúvida chega à apuração, a festa perde espaço para a desconfiança.


Mais preocupante ainda foi o episódio envolvendo o mapa de notas e envelopes que, conforme relatado, estariam com notas de outras apresentações. Uma situação dessa natureza, por si só, exige explicações claras, públicas e convincentes. Não basta dizer que houve um erro. É preciso explicar como aconteceu, por que aconteceu, quem era responsável pelo procedimento e quais mecanismos de segurança existiam para impedir que algo assim acontecesse. Transparência não é favor. É obrigação. Quem participa de um concurso cultural dessa dimensão tem o direito de saber como sua apresentação foi avaliada, como suas notas foram contabilizadas e quais regras determinaram o resultado final. A segurança jurídica do processo não pode ser sacrificada em nome da pressa de encerrar a apuração. E aqui está talvez a parte mais dolorosa de tudo isso. Quando um dirigente, um artista ou um brincante questiona uma decisão, não está necessariamente questionando o Festival. Muitas vezes está tentando defender o próprio trabalho. São coisas diferentes. Colocar associações e dirigentes como responsáveis por toda a confusão é uma maneira perigosa de inverter a discussão.

 

As entidades que representam as danças também precisam assumir suas responsabilidades quando for o caso, mas não podem carregar sozinhas o peso de um processo cuja organização e condução também precisam ser analisadas. O Festival é de todos. Não é propriedade de organizadores, dirigentes ou associações. É patrimônio cultural de uma cidade que aprendeu a fazer da festa uma forma de contar sua própria história. E foi justamente na apuração que a situação chegou ao seu ponto mais delicado. 


A decisão de colocar quatro danças da modalidade Quadrilha Alternativa, Atrapalhados na Roça, Tsuname na Roça, Show Funk na Roça e Furacão Mistura de Ritmos, como campeãs, diante das controvérsias apresentadas, abriu ainda mais questionamentos sobre a interpretação e aplicação do regulamento. Não se trata aqui de desmerecer nenhuma dessas danças. Cada uma tem seu mérito, seu público e sua história. O problema é outro. É saber se o resultado respeitou integralmente aquilo que estava previamente estabelecido para a competição. Se o regulamento prevê critérios, eles precisam ser cumpridos. Se prevê classificação, ela precisa ser respeitada. Se estabelece acesso e descenso, esses mecanismos precisam funcionar. Do contrário, corremos o risco de transformar uma competição cultural em algo onde o resultado passa a depender mais das circunstâncias da apuração do que daquilo que foi apresentado na arena.



E aí chegamos a uma situação que talvez seja uma das maiores preocupações deixadas pelo 68º Festival: a possibilidade de o tradicional sistema de Acesso e Descenso ficar comprometido diante de toda essa desordem. Acesso e descenso não são detalhes burocráticos. Fazem parte da própria lógica da competição. São mecanismos que permitem renovação, oportunidade, reconhecimento e continuidade dentro das modalidades. Se esse princípio deixar de existir ou for alterado depois da competição, será mais um golpe na confiança daqueles que dedicam suas vidas ao folclore.

 

O que deveria ser uma celebração acabou, em determinados momentos, assumindo contornos de uma verdadeira pândega. Houve acusações de parte a parte, discussões acaloradas, agressões físicas envolvendo dirigentes e conflitos entre torcedores e brincantes. Nada disso pode ser normalizado. A cultura popular não combina com violência. A paixão pelo grupo, por mais legítima que seja, não pode se transformar em território de confronto. Mas também seria simplista colocar toda a responsabilidade sobre aqueles que perderam a cabeça. Quando um processo competitivo acumula dúvidas, decisões controversas e falta de clareza, a tensão aumenta. Isso não justifica agressões, evidentemente, mas ajuda a compreender por que um ambiente que deveria ser de festa terminou contaminado por tamanha animosidade. O mais preocupante é que, no meio dessa confusão, quem acaba sofrendo é justamente o folclore. Aquele que ensaiou. Aquele que confeccionou a fantasia. Aquele que passou meses preparando uma coreografia. Aquele que colocou dinheiro do próprio bolso. Aquele que levou o filho para aprender uma tradição. Aquele que encontrou no folclore uma maneira de manter viva a memória de sua comunidade. Essas pessoas não podem ser tratadas como números em uma planilha.

 

O Festival Folclórico do Amazonas tem história demais para aceitar tamanha fragilidade em seu processo de julgamento. É preciso reconhecer que existem problemas estruturais que não podem mais ser empurrados para o próximo ano. O regulamento precisa ser revisto com seriedade, antes do início da competição. Os critérios de julgamento precisam ser absolutamente claros. Os jurados precisam ser escolhidos por critérios transparentes e, principalmente, receber treinamento adequado para compreender aquilo que irão avaliar. Não basta conhecer dança. É preciso conhecer o regulamento. Não basta ter experiência. É preciso ter independência, responsabilidade e preparo para julgar manifestações culturais com características tão distintas. Também é necessário repensar o próprio modelo de apresentação. O layout do local precisa permitir que o público das arquibancadas tenha melhor visibilidade. Quem chega cedo, quem enfrenta distância, chuva, calor ou dificuldades de transporte para prestigiar as danças também merece respeito. O público não é apenas espectador. É parte da festa. E há uma outra questão que considero indispensável: o Festival precisa voltar a discutir sua essência. Não podemos permitir que a busca pelo espetáculo transforme nossas manifestações populares em qualquer coisa que tenha apenas aparência de folclore.

 

Já escrevi outras vezes sobre a necessidade de preservar a identidade das danças e continuo acreditando nisso. Inovação é necessária. Criatividade é fundamental. Mas inovação sem identidade pode acabar produzindo um espetáculo bonito e, ao mesmo tempo, vazio de memória. O mesmo rigor que se exige das danças precisa existir na organização. Se cobramos pontualidade, disciplina, criatividade, respeito ao regulamento e qualidade artística dos grupos, também devemos cobrar tudo isso de quem organiza e conduz o Festival. Não é justo exigir perfeição de quem está na arena quando os responsáveis pelo processo de julgamento não conseguem oferecer a mesma segurança a todos. O 68º Festival Folclórico do Amazonas termina, mas suas feridas não podem simplesmente desaparecer quando as luzes da arena forem apagadas.

 

Este é o momento de fazer uma autocrítica profunda. Não para destruir o Festival, mas para salvá-lo. Não para diminuir os grupos, mas para valorizá-los. Não para criar culpados, mas para estabelecer responsabilidades. O que aconteceu precisa servir de lição. O próximo Festival não pode começar com as mesmas regras, os mesmos procedimentos e os mesmos vícios. É necessário rever o regulamento, aperfeiçoar a escolha e o treinamento dos jurados, estabelecer mecanismos seguros para recebimento e conferência das notas, garantir transparência na apuração, definir claramente os critérios de desempate e assegurar que decisões posteriores não contrariem aquilo que foi previamente estabelecido.

 

E, acima de tudo, é preciso devolver ao brincante a certeza de que, quando ele entra na arena, está entrando em uma competição justa. Porque o Festival Folclórico do Amazonas não pertence a uma comissão, a uma associação ou a um grupo específico. Ele pertence ao povo. Pertence às comunidades. Pertence aos artistas. Pertence aos brincantes. Pertence à memória cultural de Manaus.

 

Por isso, minha indignação não é contra o Festival. É justamente porque acredito nele que não consigo assistir calado ao que aconteceu. O 68º Festival Folclórico do Amazonas precisa ser lembrado não apenas pelos seus campeões, mas também pelas lições que deixou. Que os erros sejam reconhecidos. Que as responsabilidades sejam apuradas. Que o regulamento seja respeitado. Que o julgamento seja realmente isonômico. Que a apuração seja transparente. Que a violência jamais volte a ocupar o lugar da cultura. 


E que, no próximo ano, quando os primeiros acordes anunciarem a entrada de uma nova dança na arena, ninguém tenha dúvida de que ali estarão competindo, acima de tudo, a criatividade, a tradição, o talento e a paixão de um povo. Porque quando a credibilidade do julgamento é colocada em dúvida, não é apenas uma dança que perde. É o próprio Festival que corre o risco de perder sua razão de ser.

 




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